Aproveitando que amanhã é o Dia da Luta Anti-manicomial, meu post hoje será um homenagem ao tema "Saúde Mental".
Na semana passada, eu e meus colegas entrevistamos mais um paciente do hospital psiquiátrico no qual fazemos estágio. Esse paciente, entretanto, era bem diferente dos outros que já entrevistamos e, assim, me chamou muita atenção! Ele é um homem letrado, de fala requintada e na entrevista mostrou dominar assuntos desde artes marciais à psicologia e filosofia. Chegou a falar inglês, espanhol e alemão durante a entrevista, pois era professor de língua estrangeira em uma escola. Falou com carinho da esposa que está grávida de 5 meses, e que está prestes a realizar seu grande sonho: ser pai. Sua fala estava um pouco embolada por causa da medicação, mas ele mesmo já nos havia alertado sobre esse fato e até se desculpou!
A discussão sobre esse caso foi bastante polêmica: qual o problema com esse homem? Por que ele está internado num hospital psiquiátrico? Ele disse na entrevista que alguns caras o estavam procurando e queriam mata-lo porque ele havia se recusado a comprar drogas na mão deles. Isso foi caracteriazado como "Delírio Persecutório" (de perseguição), típico de um paciente com psicopatologias. Mas e se descobrirem que esses caras realmente existem e que querem matá-lo mesmo? Aí deixa de ser delírio e vira uma coerência!
Qual é o limite entre o louco e o não-louco, então? O que é ser normal, hoje em dia? Penso que esse conceito é muito perigoso... Vários pacientes são internados porque oferecem perigo a eles mesmos e à sociedade. Como, então, eles serão reabilitados dentro de um ambulatório convivendo com pacientes mais graves e tomando dosagens de antipsicóticos com efeitos colaterais devastantes? "Alí, quem não é louco, vira louco..." Disse um colega uma vez. Concordo plenamente. A humanização dos tratamentos psiquiátricos é necessária e com urgência!
Consigo imaginar esse paciente que atendemos se reabilitando junto de sua família, de seus livros. Mas não. Uma vez taxado "louco" o homem não é nada. Como o próprio paciente relatou (e até me emocionou): "meus vizinhos me vêem e ficam rindo, me chamando de doidinho, de pirado, não importa o que eu faça. Tudo que falo é descartado, é doidera. Minha palavra hoje vale bosta!" Desculpem o vocabulário.
Está aí mais uma realidade cruel para preocupar não só os profissionais da saúde como toda a sociedade. Afinal, o taxamento de "louco" pode ser dado a qualquer um que se desvie dos padrões convencionais da nossa sociedade, até mesmo a você, já pensou? E se te internarem, mesmo se seu diagnóstico for um engano, não se preocupe: na atual situação dos hospitais, você acabará "pirando" mesmo...
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6 comentários:
Muito bom. Sobre este assunto recomendo o conto de Guimarães Rosa, "Soroco, sua irmã e sua filha", presente no livro outras histórias e também no site: http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/soroco
Magnífico! Muito bem lembrado! A reforma psiquiátrica deve retomar forças para continuar sua luta! Se fossem ler sobre isso...horrores bárbaros! Relembrei minhas aulas de saúde mental, psiquiatria...É preciso cuidar dessas PESSOAS também! Não têm culpa da patologia que os consome a mente...Deus os abençoe!
Bem, de todo o texto, o que mais fica pra mim é realmente o limite entre a "sanidade" e "insanidade". Digo que a loucura para mim não se relaciona com nível social. Portanto, não me surpreende o nível intelectual da pessoa descrita por Lívia. Evidentemente, questiona-se a política das instituições psiquiátricas e seu nível de contribuição para a melhoria dos pacientes. Por outro lado, devemos considerar todo o trabalho que já foi feito nesses locais de modo que oferecem hoje condições de internação superiores ao "antes". É verdade que o futuro é dos CERSAMs, que são hospitais-dia, mas receio dizer que para mim ainda são polêmicas essas novas medidas. Será que soa estranho para vocês? No mais, claro que acredito em erros médicos e psicológicos, mas não creio que é "assim" o lance da gente ficar cogitando a hipótese dele não ser louco ou de abrir inquérito para averiguar a veracidade de sua história. A Psiquiatria e a Psicologia (mesmo de que eu não compartilhe de algumas linhas) dispõe de mecanismos de bastante rigor científico que certamente são, pelo menos, dignas de confiança. Por fim, PARA MIM os indivíduos tem parcela da culpa da "patologia" (odeio essa palavra) que os acomete sim, porém, infelizmente e na maioria das vezes, não dão conta e não tem condições de buscarem ajuda. Espero não ter soado como alguém do contra. A verdade é que não sou e detesto hospital psiquiátrico, mas TUDO DENTRO DO POSSÍVEL, NÉ? Comentem... obrigado.
É Lucas, concordo sobre os avanços de hoje sobre o "ontem" no que diz respeito aos hospitais psiquiátricos. O exemplo que usei foi somente uma entrevista, um breve recorte da história deste paciente. Infelizmente não temos acesso a todo o prontuário do paciente em nossas aulas, então conclusões sobre delírio, alucinações e o tipo de diagnóstico são tiradas por nós e pela professora com base apenas nessa entrevista! E foi a partir desta que pude perceber a aparente "sanidade" do paciente sob bombardeio de classificações patológicas, "forçadas" pela professora. Claro, pode ser só uma impressão minha. Concordo sobre a confiabilidade dos métodos psiquiátricos, porém penso que a legitimidade científica por trás disso pode ofuscar dados que deveriam ser considerados, como o senso crítico do paciente sobre seu próprio caso. Também não gosto de hospitais psiquiátricos...
Eu vi um cara fantasiado protestando no Bandeijão. Achei legal.
Agora sim, você falou uma coisa que me chamou muito a atenção (e não que antes tenha sido diferente). A legitimidade científica não só pode ofuscar dados que deveriam ser considerados, como o senso crítico do paciente sobre seu próprio caso, como muito mais, a própria pessoa em si que ele mesmo é. Claro, a tecnicidade e o afastamento do profissional favorecem o detrimento da qualidade afetiva necessária a um bom processo de ajuda. Vale pensar nisso como um fator propulsor ao afastamento próprio de si mesmo, por parte do paciente. As pessoas acabam trancafiando-se atrás das palavras e dos saberes. Ok. Nesse ponto vale a pena pensar até quando todos nós sempre fazemos isso, em maior ou menor grau.
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