quarta-feira, 2 de maio de 2007

Idéias sobre psicologia: uma análise do clássico Atlético x Cruzeiro

A melhor ferramenta que a criança humana dispõe para um saudável desenvolvimento cognitivo, moral e social é a brincadeira. Os jogos lúdicos com os pares, principalmente os que envolvem competição, são um ótimo "treinamento" para as relações sociais na vida adulta.
Como pude perceber nitidamente no último domingo, o gosto pela competição é uma característica que permanece no ser humano, ao longo de seu desenvolvimento. Pela primeira vez, em 20 anos de belorizontina, assisti ao clássico Cruzeiro x Atlético no Mineirão. Como não sou fanática por nenhum dos dois times, não me agreguei a nenhuma torcida e acabei me sentindo uma professora que assistia ao bate-boca de dois coleguinhas inimigos. Quem não se lembra da seqüencia do cala-a-boca? "Cala-a-boca!" "Vem tampar" "Não tampo boca de esgoto" "Minha boca tá aberta pra dar resposta e a sua pra blá blá blá". Foi exatamente isso que observei, porém com um palavreado de baixíssimo nível.

A competição, segundo teorias evolucionistas, é uma das estratégias-chaves para a manutenção da sobrevivência, uma vez que, onde os recursos são escassos, o homem previlegiado é aquele que se sobressai sobre os outros. O interessante sobre o jogo é que o sentimento de competição dos torcedores era tão extremo, que certamente os fazia esquecer todos os demais problemas do dia-a-dia (o que pode explicar a grande adesão do brasileiro em torcidas de futebol) e os fazia ter taquicardia, suar frio ou até passar mal, como eu pude presenciar! Ou seja, reações fisiológicas que preparavam para a luta, fuga ou ataque, em competições pré-históricas. Como observadora neutra, pude observar a fissura dos torcedores ao meu lado, que ali não eram advogados, empresários, professores ou médicos e sim "A massa" ou "A máfia". Até mesmo crianças, gritando como adultos palavrões e cantorias que nem mesmo sabiam o que era!

Sim, a competição tem esse efeito no ser humano. O prêmio em questão é o prestígio e a superioridade sobre outros (mesmo sabendo que o mérito da vitória é dos jogadores e não dos torcedores fanáticos...). Se Freud tivesse vivo, certamente focalizaria seus estudos no investimento energético que os homens (grande maioria no Mineirão) fazem no futebol (esporte cujas habilidades se relacionam fortemente com o nível de testosterona) e esse gosto pela superioridade seria explicado como um mecanismo compensatório por frustrações sexuais, complexo de Édipo mal resolvido ou episódios de castração. Mas aqui não entrarei nesse mérito.

O objetivo dessa análise não é fazer críticas a competições entre torcidas de futebol, que particularmente penso que é uma característica essencial da cultura brasileira; assistir a um clássico ao vivo é realmente emocionante pela paixão das torcidas em relação aos times e toda festa feita ao redor do jogo. Também não pretendo tirar conclusões revolucionárias sobre o episódio. Apenas constato aqui, sob um ponto de vista analítico, parte das idéias que brotaram em minha mente durante o jogo. Mas posso aqui afirmar que estudos sobre grandes teorias psicológicas poderiam ser realizados tomando como referência esse magníficos objetos de estudo que são as torcidas de futebol no Brasil.

2 comentários:

fred disse...

Todos broxas, esses atleticanos!

sam disse...

Penso que o espírito de competição e a agressividade demonstradas em partidas de futebol pela torcida, desde que mantidas em certos níveis toleráveis (agressões físicas de fato) são ótimas válvulas de escape, sobretudo às pressões do dia a dia. Penso que ninguém em seu momento de lazer se preocupa com as mazelas quotidianas, visto que justamente procura-se, ao menos por um momento, delas se esquecer. No mais, os cruzeirenses são todos menos dotados que os atleticanos. :oP