domingo, 27 de maio de 2007

Idéias sobre SER PESSOA - 1.A Referência Interna

Gostaria de pedir algumas desculpas sobre minha postagem anterior (única, por sinal). O sábado foi recentemente acordado como sendo de minha responsabilidade e acabei por "roubar" a aquela quinta do Samuel. Até então eu não havia encontrado um dia favorável. Um outro problema foi que as fotos anexadas saíram muito grandes, o que não era a intenção. Hoje peço novas desculpas, pois não tive tempo de postar ontem e me dou a licença de fazê-lo agora. Mãos à obra.

A idéia de estar submetido ao desejo e à ordem do Outro, aquele significante imperativo que nos diz o que fazer, o que comprar, como se cuidar e quem ser, vem trazendo prejuízos fatais que nos colocam em uma posição delicada. Como resultado, acabamos por viver esperando uma intervenção de fora, do Outro da Ciência que salva, que diz se estou certo ou errado, que me DESVIA DE MIM MESMO e se interpõe como uma referência (externa). ATENÇÃO: a crítica não é direcionada à ciência, mas à maneira de estar-no-mundo contemporâneo, que (pode-se dizer) vem sendo amparada pelo saber da ciência, conjugado a inúmeros fatores de ordem política, social e econômica.

Infelizmente, SER PESSOA é ser alguém que diz do que viveu e aprendeu - alguém que vive a partir de suas experiências. Se o modelo contemporâneo é regido por relações de domimante-dominado, superioridade-inferioridade, ascendência-submissão, autoridade-subordinação, notemos a certeza de que assim aprendemos a ser.

Por outro lado, se SER PESSOA é poder construir-se a partir de suas vivências, isso implica em afirmar-se em seu poder de mudar. Pois, para mudar é necessário que seja possível estar em contato consigo mesmo e em constante avaliação de suas experiências (AVALIAÇÃO NÃO-INTELECTUAL), de modo que se possa atentar-se para seu próprio conhecimento organísmico e sua maneira de situar-se no mundo. Essa noção de si não parece ser de fácil aprendizado e requer um trabalho intenso de atenção AO QUE OCORRE EM MIM NO AQUI E NO AGORA, sendo "eu" o integrado de tudo o que possa me fazer parte. É conjunto de experiências disponíveis à consciência num determinado momento. EU COMO PESSOA que sente, pensa, age, tem corpo, cabeça, um fígado, um corte no dedo... tudo. Isso é REFERÊNCIA INTERNA.

De alguma maneira, a referência interna me parece ser algo muito produtivo nas relações interpessoais. Se tenho uma forma de nomear o que sou agora (isto é, como estou), sou capaz de diferenciar-me do outro e isso me livra de alguns desentendimentos corriqueiros. Ex.: 1."Espera, então ele é um saco para mim porque EU NÃO aguento quando ele me chama a atenção." 2. de "minha namorada não gosta de mim", posso avançar para "espera, não é que ela não gosta de mim, EU TENHO MEDO de que ela não goste de mim, será?". Notem que a possibilidade é infinita e o avanço pode ser incrível. Em relação a 1, continuando o raciocínio: "por que eu não aguento que ele me chame a atenção? Só agora percebo que SEMPRE me incomodo quando AS PESSOAS em geral me chamam a atenção". Ou continuando 2, "acho que não faz mal perguntá-la se ela ainda gosta de mim, afinal, tem muito tempo que não ouço nenhum elogio."->
"Puxa, na verdade é ela que pensava que a relação já estava morta, por isso me procurava tão pouco, TINHA MEDO de que eu fosse rejeitá-la. Por que será que isso foi acontecer a nós?"

Muito mais importante que a causa do problema, a beleza está no processo de conhecimento e continuum de construção das relações, motivados pelas constantes auto-perguntas. Essas, infelizmente, com o passar do tempo, estão sendo tampadas pelas soluções imediatas da hiper-modernidade. A questão é: como conciliar um e outro? Ou como fazer parte de tudo isso sem me violentar excessivamente?

Enfim, na verdade, tudo está em mim, pois é a partir de mim que vejo os outros e as coisas.

Que tal pessoal? Tá bom né? Eu empolgo de verdade. Comentem muito. Obrigado.

5 comentários:

sam disse...

Esta questão de referência interna me ajudou bastante. Entretanto, nem sempre estou confortável com as evoluções que faço.
Refleti um pouco também sobre minhas motivações ao escrever sobre Meio Ambiente e evolui para: "me preocupo muito com o meio ambiente e gostaria de partilhar estas preocupações".
prometo pensar mais no assunto.

Lucas disse...

Flags, gostei muito do seu comentário. Algo que inclusive me motivou a falar também da minha motivação no blog(eu já mencionei na apresentação?). Bem, eu simplesmente estou muito feliz com as contribuições de Carl na minha vida pessoal e acadêmica e gostaria de oferecer também isso a vocês, se possível, além de compartilhar um pouco da minha felicidade.

fred disse...

Na semana passada, no BlogTalkRadio do Olavo de Carvalho (conhece?), ele fez algumas construções que pareceram bastante parecidas, mas do ponto de vista cristão, o que muda muita coisa: referência externa primordial, o momento de reflexão se dá como uma conversa com Deus e outras coisas mais. Mas Carl Roger era ateu né?
Ah, minha frase de rodapé de e-mail é do Abraham Maslow: "If the only tool you have is a hammer, you tend to see every problem as a nail."

Lucas disse...

Fred, não conheço o programa. Mas em relação ao que você disse, creio que a Referência Interna e Deus pode ser algo de extrema polêmica. Deus está dentro ou fora? Qual é a idéia que faço do meu Deus? Quando falo com Deus, falo comigo ou com algo personificado que se apresenta diante de mim? Há ainda o tal Evangelho de Tomás, considerado pelos historiadores como o registro mais próximo das palavras de Jesus. Nele, o próprio Jesus disse:

"O Reino de Deus está em vós... E à sua volta...".
"Não em templos de madeira e pedra...".

Se pensarmos assim, Deus pode ser apenas uma metáfora. Bem, foi apenas um devaneio meu. Mas no caso do programa eu teria que escutá-lo para entender a maneira como a mensagem é transmitida.

Quanto a Carl, era o filho do meio de uma grande família protestante, de valores tradicionais e religiosos (quase fundamentalistas). Sei que aos 12 anos já começou a ter contato intenso com a ciência. Frequentou também o Seminário Teológico Unido, em Nova York, onde foi influenciado por uma liberal visão filosófica da religião. Isso faz muito sentido, pois a liberdade é uma base fortíssima de sua teoria, que inclusive é qualificada como representante do movimento Humanista-Existencial (totalmente "liberdade"). Muitas de suas obras falam também de educação liberal.
Voltando, em termos da religião, não me lembro de nenhuma obra em que tenha mencionado nada, somente no livro "Um Jeito de Ser", ele descreve um pouco de sua experiência no processo de morte de sua mulher. No mais, é isso.

Lívia disse...

É Lucas... Lendo o seu texto percebi que o SER PESSOA é realmente difícil para a maioria das pessoas, já que desde pequenos somos educados a atribuir sentimentos sentidos por nós somente a uma causa externa ex:"Ele me humilhou", "Isso me machucou", etc. A tendência é esquecermos de nós mesmos em nosso cotidiano (irônico, não?).E assim somos fragmentados e substituídos gradativamente por demandas externas.
Inclusive acho que um dos proveitos que mais consegui tirar da terapia humanista é a inversão dos "vetores":
De: EU -----------------> OUTRO
Para: EU <------ OUTRO
-->
Não sei se deu pra entender o esqueminha mas é tipo virar-se mais para vc, ter mais referência interna do que externa...
Isso é fundamental.