Atendendo à sugestão do Fred, escreverei hoje sobre algo pela qual muitos de nós já passamos, seja na escola, em um processo seletivo ou no consultório: os testes psicológicos.
A produção de testes psicológicos é uma grande tendência atual na psicologia, tanto pela constante demanda de instituições e famílias por um psicodiagnóstico, tanto pelo gratificante bônus monetário que envolve a comercialização do teste e a cessão de seus direitos autorais.
O desenvolvimento dos testes envolve um longo processo de padronização, ou seja, a aplicação em uma amostra bem grande para definir os padrões de resposta, o que cada escore significa em comparação com a população geral, etc. Um teste deve ter confiabilidade (realmente medir aquilo que se propõe a medir) e validade (ser consistente em vários contextos e em vários períodos de tempo).
Os testes de inteligência, talvez os mais famosos, são muito utilizados nas escolas e quando há suspeita de déficit cognitivo ou superdotação em um paciente. O Raven (um que envolve figuras geométricas, você deve escolher uma das figuras para completar o "todo") é, talvez, o mais utilizado, pois é bastante confiável e válido. Ele mede a inteligência geral (já explicada no meu post "inteligência, criatividade e escola") e tem versões para várias idades. O WAIS é outro famoso teste de inteligência que envolve vários subtestes e mede mais habilidades específicas do probando como memória, habilidade espacial, verbal, etc. O WISC, o DFH e o Raven colorido são os testes mais famosos para avaliação da inteligência em crianças.
Os testes de personalidade são muito utilizados em seleção de pessoal, juntamente com os testes de inteligência. O empregador geralmente tem em mente o perfil de profissional que ele quer, portanto, testes de personalidade poderão indicar aqueles candidatos aptos para a vaga. O grande problema da maioria dos testes de personalidade atuais é que eles são projetivos, ou seja, o indivíduo deve responder a uma espécie de auto-avaliação sobre ele mesmo. Isso pode implicar uma manipulação do teste ou um resultado de acordo com o estado de ânimo do probando no momento do teste, não um traço de personalidade estável. Os testes de habilidades sociais também são indicados para investigar traços de personalidade. Como exemplo, temos o HTP (House, Tree, Person), o CPS (Escala Comrey de Personalidade) e o IHS (Inventário de Habilidades Sociais).
Os testes psicológicos somente podem ser aplicados por psicólogos ou estudantes de psicologia devidamente treinados, ficando proibido a aplicação do teste por profissionais de outras áreas ou leigos. Lembrando que os escores brutos obtidos em um teste não significam nada para o solicitante do teste sem um relatório do psicólogo que o aplicou, explicando o resultado em termos simples e compreensíveis. Outro ponto importantíssimo é o sigilo profissional: o resultado do teste deve ser comunicado somente ao probando e ao solicitante do teste, quando autorizado.
Muito bonito isso tudo. Mas, como em toda área de conhecimento, na psicologia há uma grande facção contra-testes. O psicólogo tem um poder muito grande nas mãos: ao classificar uma criança, por exemplo, como portadora de Retardo Mental, ele estará mudando completamente a vida dessa criança e de sua família. Por isso a testagem deve ser cautelosa, e NUNCA definitiva para estabelecer um diagnóstico sozinha. O ideal é aplicar vários testes e contextualizá-los com observações clínicas e entrevistas. O que acontece é que MUITOS profissionais não estão devidamente preparados para esse tipo de avaliação e acabam fazendo do teste uma "verdade absoluta". Outra crítica (bem pertinente na minha opinião) é que os testes são muito relativos. Mesmo com toda a cautela para validação e confiabilidade, eles realmente podem ser mecânicos e simples demais para considerar o ser-humano como um ser biopsicossocial: no momento do teste pode haver influências fisiológicas e emocionais importantes que não são detectadas pelo teste e acabam influenciando no resultado.
É claro que os testes psicológicos são bastante úteis nos mais diversos contextos e vários estudos estão sendo realizados para a aprimoração dos que já temos e para a publicação de novos testes.
É só lembrarmos que são instrumentos construídos por pessoas, como nós, portanto passíveis de erro e de julgamento precipitado... Afinal, acho que não existe e nunca vai existir "algo" tão complexo e imensurável como as habilidades humanas.
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8 comentários:
Muito bom, deu pra entender os motivos para o uso dos testes e também suas consequências, falhas e aplicacões.Porém acho que os meios utilizados para chegar nesse resultado seria o meu maior interesse (o como cada resposta e ato são avaliados) mas entendo que seja inviável e anti-ético a postagem destes.
Para terminar aqui vai uma sugestão: você falou sobre diversos testes, contudo não falou sobre o da aptidão profissional (não sei se esse é o nome, mas é o utilizado para auxiliar na escolha dos cursos durante o vestibular).Gostaria de saber um pouco mais sobre ele e suas perguntas, além de, se fosse possível, mostrar o motivo das perguntas e como são deduzidos os cursos de maior afinidade de quem fez o teste.Acho que nesse caso não teria problemas.
O teste vocacional não é um teste psicológico, pois não medem um construto psicológico (ex: personalidade, inteligência, atenção, memória, etc), podendo ser administrados também por pedagogos e assistentes sociais, por exemplo. O que sei sobre testes vocacionais é que a maioria avalia mais o gosto de cada indivíduo por determinadas áreas (através de perguntas como "Gosto de lidar com números mais do que com pessoas") ou suas habilidades escolares direcionadas e não o tipo de profissão ideal para determinados traços de personalidade, como a maioria pensa. Não sei muito sobre esse tipo de teste mas te digo que explicitar o funcionamento interno desses, como você solicitou, também seria anti-ético pois a manipulação desses testes também é restrita a certos profissionais que fazem cursos e treinamentos cautelosos para aplicá-los.
Como você mesmo disse, os meios utilizados para se chegar ao resultado de cada teste não podem ser explícitos, e também daria um curso de umas 60h/aula, pra cada teste, pois eles são bastante complexos.
Lívia, achei mesmo EXCELENTE o texto. Muito informativo, detalhado e inclusive valorizo o fato de ter escutado minhas sugestões de tema para esta postagem. Gostaria apenas de lembrar que para a "manipulação" dos testes de personalidade pelo probando (é isso mesmo? Nunca tinha ouvido essa palavra)existem recursos já encontrados em alguns testes, como um coeficiente de erro e mentira (creio que há inclusive um nome para esse coeficiente, que me esqueci agora). No mais, está realmente de parabéns pela clareza da postagem.
Quanto ao processo de Orientação Vocacional mencionado pelo anônimo, gostaria de comentar. Existe o que chamam de "teste vocacional" que se passa muito pelo que a Lívia comentou mesmo. Por outro lado, há o processo de "Orientação Vocacional", feito por profissionais ou clínicas especializadas. A duração é de normalmente 12 a 15 sessões onde são aplicados diversos tipos de testes (podem incluir até mesmo testes de inteligência ou outros construtos específicos), são passadas informações a respeito de cursos e trabalhados alguns dilemas e conflitos provenientes da situação de escolha. Assim mesmo este serviço é oferecido, por exemplo, aqui na PUC MINAS.
Anônimo, espero ter contribuído com o esclarecimento de sua questão, bastante pertinente e interessante também.
Obrigado.
É Lucas, vc está falando do Coeficiente de Tendenciosidade. Mas fiquei na dúvida se a postagem dessa informação aqui não poderia ser inapropriada... Sei lá...
Mas boa explicação sobre orientação vocacional... Não domino ainda esse assunto. Obrigada pela contribuição!
Obrigado Lívia! Achei muito bom o texto e vou recomendar para outros amigos que também ficaram com uma pulga atrás da orelha.
Pelo que eu entendi, eu fiz dois testes Raven e um *PT(Person, Tree).
Lá na engenharia a gente gosta de zuar com a cara dos outros falando que quem desenho o(a) carinha com a mão no bolso tomou bomba, hahaha.
hehehehe... "Mão no bolso" em termos psicológicos quer dizer que vc é um psicopata em potencial heheheheh tô zuando, lógico...
muito bem escrito o texto. vc vai longe menina!
eu tenho um livro de "testes" em casa.
hehehe
Hehehe na verdade o seu livro de testes está na MINHA casa hahahah... Mas te devolverei...
Esses testes do livro não são válidos, a maioria. Tipo, não são reconhecidos como testes psicológicos "oficiais". Mas são bem divertidos, sim.
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