segunda-feira, 11 de junho de 2007

Idéias sobre SER PESSOA - 3. A Experiência

A articulação entre os construtos de "Referência Interna" e "Tendência à Atualização" é simples. A própria força que é a tendência aponta para dentro, para o interno. Apesar de ser inerente a TODOS os organismos vivos (mesmo que estejamos falando de sua manifestação nos seres humanos), ela se operará em nível possível de desenvolvimento máximo das potencialidades apenas quando o padrão de referência for interno. Resumindo, a referência é interna? Ok, pontapé inicial ao favorecimento da tendência a atualização. Disse eu mesmo em outra postagem: "SER PESSOA é ser alguém que diz do que viveu e aprendeu - alguém que vive a partir de suas experiências." "SER PESSOA é poder construir-se a partir de suas vivências..." (ou experiências) "estar em contato consigo mesmo e em constante avaliação de suas experiências". Mas o que seria verdadeiramente a experiência? Notem que aqui a experiência não é o acúmulo de vivências. Apesar de já ter escrito um pouco sobre a experiência, senti a necessidade de trabalhar um pouco melhor o que entendo sobre ela.
Imaginem em uma situação de viagem. Tudo está certo: a mala está feita, o banho está tomado, o dinheiro separado, as chaves guardadas, a casa fechada, bem, você está pronto(a). No aeroporto você se sente bem, com um frio na barriga (atenção ao frio na barriga, ele será comentado). Alguém te liga e se despede. Ótimo, você está no avião e ele se prepara para decolar. De repente, você sente uma sensação estranha. Não sabe o quê, mas algo está errado. Ou não. Mas é estranho, algo te acomete. Você não escolheu aquilo, veio de repente. Parece uma preocupação, um medo, talvez não seja nenhum dos dois. Você se pergunta se seu problema está relacionado ao senhor que sentou-se ao seu lado ou se você desenvolveu com o tempo um "pânico" de avião. Bem, o fato é: você (depois da decolagem) "sua frio" e está verdadeiramente atormentado com a situação até que... finalmente! Você se lembrou... após tomar o banho e escovar os dentes você se esqueceu de colocar a escova na mala, pois estava preocupado com os documentos que precisava levar. A escova! Que alívio...
Vejam, a experiência é o algo que acontece no aqui e no agora. São os pensamentos, sentimentos, sensações, emoções, nomeáveis ou não. Naquele momento no avião, isso dizia respeito não só à sensação corpórea esquisita, assim como seu suor, suas hipóteses acerca da situação. Tudo. Isso era sua EXPERIÊNCIA.
Acontece que podemos pensar a experiência em dois aspectos: a EXPERIÊNCIA SIMBOLIZADA e a NÃO-SIMBOLIZADA. Percebemos que muitas vezes os desconfortos, os desequilíbrios e os conflitos surgem de experiências não-simbolizadas. O "esquecimento da escova" nos exemplifica bem uma experiência não simbolizada que acabou por se simbolizar e provocar o alívio (prazer). Posteriormente, o equilíbrio e a boa sensação vieram ao saber que a simples solução era chegar ao local de destino e comprar uma nova na farmácia mais próxima. Pois, mesmo vislubrando um problema (a falta de escova, um esquecimento, a perda de tempo para comprá-la, o dinheiro gasto - poderia ser seu terno de reunião), mesmo assim, a simbolização te ofereceu o poder de atitude e decisão, favorecendo o seu bem-estar posterior. Agora você sabe o que pode fazer com o que experiencia.
O transcorrer do cotidiano nos presenteia usualmente com situações que nos causam experiências das mais diversas. Não as escolhemos, repito, elas nos acometem. Mesmo assim, o que me parece mais importante é não negar-lhes (as conseqüências são mais drásticas, quando há distorção), é apropriar-se delas, mesmo que lhe sejam desprazeirosas, pois o que se sucede é o que importa: o que farei com o que me acomete?
Percebo que meu relacionamento com minha mãe vai mal. Tudo é motivo para que eu discorde, a agrida verbalmente. Enfim, algo acontece entre nós, principalmente comigo (experiência não simbolizada). Após meses, noto que depois que ela se engendrou em seu novo curso, não me oferece mais tanta atenção, prefere ficar horas estudando ao invés de perguntar-me sobre meu dia e conversar horas como costumávamos fazer. Aí vem a raiva, sei que estou com raiva (experiência simbolizada). Mas agora quero matá-la. E posso continuar querendo. Entretanto, matá-la fará realmente bem a mim? O que eu queria não era atenção? Matando-a não terei atenção.
Uma linda garota passa ao meu lado e me surpreendo pensando em nós dois juntos... "Eu não devia pensar nisso!" Por quê? Por que não posso pensar nisso? A minha questão é: quero abandonar minha relação por uns beijinhos ou por uma boa transa?
Quando não percebemos nossa raiva em relação a alguém acabamos por evitá-lo(a). Ou somos grossos, ofendemos (a raiva é só um exemplo aqui). Preferível prestar atenção na experiência e descobrir de vez a raiva para expô-la, ou não, e parar de prejudicar a nós mesmos ou ao outro. A experiência não-simbolizada provoca o ato. Passa-se ao ato. Age. Quando simboliza-se podemos pensar, decidir. Podemos escolher. A escolha é crucial. Estamos, assim sob o âmbito da referência interna. E provocando o movimento de atualização de nós mesmos. A experiência é, então, o mecanismo de acesso ao mundo externo, às relações. É o intermediário de meu contato.

Espero ter sido bastante esclarecedor. Obrigado por sua leitura.

11 comentários:

Lucas disse...

Desculpem, vejo que me esqueci de comentar o "frio na barriga". Para ser suscinto, é uma outra experiência. Provavelmente a experiência da expectativa. Ela pode tanto me fazer derrubar um café (se não for simbolizada) se não for percebida ou pode me causar uma grande alegria e felicidade (sentimentos consequentes a simbolização) que irão me remeter ao meu esforço para ganhar a grana e realizar aquele sonho. Que satisfação! (sem ansiedade).

Bruno Leal Medeiros disse...

Só uma coisinha...pra levantar polêmica... e qdo você não encontra a razão da raiva...da alegria, da ansiedade?
Acontece só comigo???

Lucas disse...

Bruno, como eu disse no texto sobre a Referência Interna: muito mais importante que a causa é o processo. Vivenciar uma experiência sem negá-la ou sem atribuir razões desprovidas de sentido já é o necessário para o favorecimento da Tendência Atualizante. Isso quer dizer, prestar atenção na experiência e simbolizá-la é uma pré-condição para o entendimento da razão. A sabedoria organísmica se encarregaria de mostrar o caminho, em seu tempo. Portanto, viver a experiência, digamos, por este ponto de vista, é QUASE TUDO. O resto vem com o tempo e com a disponibilidade. Valeu.

Lívia disse...

Lucas, os conceitos de simbolização e não simbolização me lembraram fortemente os conceitos de consciente e inconsciente da Psicanálise. São construtos parecidos? Até mesmo a "psicodinâmica" de experiências não-simbolizadas tornando-se experiências simbolizadas para fazer um certo sentido ao indivíduo, me lembrou as passagens consciente-inconsciente (e vice-versa) da psicanálise, como o recalque e o ato falho. Qual a diferença entre os construtos das duas abordagens?

Lucas disse...

Lívia, poder-se-ia dizer que as experiências não-simbolizadas são uma espécie de inconsciente, ou seja, o que não está disponível à consciência (mas apenas isso). O inconsciente não é tratado na Abordagem como instituição ou como estrutura. Eu não me sou verdadeiramente nele, como diria Freud. O famoso cogito cartesiano "Penso, logo sou", foi transmutado por Freud para "Penso onde não me sou, sou onde não me penso". Na Abordagem não funciona assim.
Primeiramente, o objeto de estudo não é o inconsciente em si, como na Psicanálise. É a pessoa como um todo (experiências). Segundo, dentro da Abordagem não se trabalha com "inconsciente" e sim com "consciente". Não é negar ou evitar, apenas focar-se no conscîente. É trabalho fenomenológico. Trabalhar com a percepção do indivíduo sobre si mesmo. A simbolização ocorre naturalmente, não sendo, pois, um fim da terapia.
Será que ajudou alguma coisa? Não sei se foi suficiente. Gostei muito da pergunta, by the way.

Lucas disse...

Lívia, dá pra ir mais fundo ainda. Na Psicanálise, o inconsciente ainda diz respeito ao material recalcado que é sempre de conteúdo sexual. Aí já na Abordagem não necessariamente teria sido recalcado e muito menos diria respeito a um conteúdo exclusivamente sexual... Existem muitas diferenças. Depois podemos conversar melhor sobre isso. Mas fique à vontade para lançar mais perguntas, caso lhe pareçam necessárias. Obrigado.

Lívia disse...

Ah sim, respondeu muito bem!
Ando gostando muito da teoria Humanista e, refletindo sobre minha (limitada)"prática" clínica, percebo que acabo usando muitos preceitos da Teoria, talvez por causa da influência que a Maria Luiza teve em mim, não sei... Isso me leva à outra dúvida: a minha abordagem principal na clínica é a cognitivo-comportamental, porém me apoio bastante, como disse, na terapia centrada na pessoa (é meio que automático! Acho bem eficiente). Você acha que há como utilizar uma abordagem cognitivo-comportamental-humanista na clínica? Há algum autor ou abordagem que utilize esse "casamento"?
Pergunto isso porque em tudo que leio sobre o humanismo vejo uma tendência "anti-comportamental", então pensei que o casamento poderia ser meio incoerente... O que acha?

Lucas disse...

Lívia, na minha opinião, na clínica vale QUASE tudo. Para mim, o principal é a visão de homem. Com a minha visão de homem (se ela estiver bem trabalhada) eu sempre saberei o que fazer. Acredito que o homem é uma máscara, um algo desconhecido, seus comportamentos são uma fachada, ele é movido por impulsos destrutivos, resultados de forças internas? Acredito que o homem por si é resultado da interação entre características onto e filogenéticas e as conseqüências de sua interação com contigências do ambiente? Acredito que o homem é um ser de possibilidades, que busca seu enriquecimento e desenvolvimento a partir de sua capacidade de escolha? Quando há essa clareza, creio que está configurado, implicitamente, o eixo epistemológico do terapeuta.
Utilizar de "técnicas" de abordagens múltiplas é sempre eficaz, para mim, entretanto a base deverá estar bastante clara, para não se incorrer em duplas mensagens ou confusões nos momentos de intervenção, que podem causar o detrimento do processo (é só a minha opinião, repito). Sobre Comportamental X Humanismo, acredito (como disse) que é possível fazer uma apropriação de técnicas circunstancialmente. Mas há fatores muito delicados, visto que um dos conceitos fundamentais da Abordagem é ser "não-diretiva". Seria isso o "anti-comportamentalismo" da Abordagem ao qual você se refere? Não sei. Na verdade, não conheço autores que façam o casamento.
Bem, é isso... obrigado.

Lívia disse...

Valeu pelos esclarecimentos... Conversamos mais sobre isso depois.
Obrigada!

fred disse...

Gostei muito do texto. Eu acho que tenho uma tendência a negar algumas experiências. Deve ter até relação com a minha memória de ameba.

sam disse...

bom o texto, mas este blog está muito psicológico! hehehe

gostei da seguinte frase
"prestar atenção na experiência e simbolizá-la é uma pré-condição para o entendimento da razão".