quinta-feira, 5 de julho de 2007

Idéias sobre Psicologia: apelo aos Universitários

Hoje o meu post será diferente. Não terá muitas idéias SOBRE psicologia, mas sim idéias que andei tendo na minha prática em psicologia.
O que mais vemos hoje em dia em nosso mundo universitário é o pessoal preocupado com a carreira, arrumando estágios (de preferência remunerado!), e, assim que formam, logo pensam: "humm... agora, qual o jeito mais fácil de enriquecer?" Não me excluo desse meio, infelizmente essa era a mentalidade que costumava ter.
Recentemente tive uma experiência que agora considero um divisor de águas na minha formação profissional. Tive a oportunidade de sentir bem de perto, através de uma paciente, uma realidade que, nenhum de nós que tem condições de estar lendo isso agora nunca experimentou, e provavelmente nunca experimentará...
Uma realidade onde não há universidades (nem se quer conhecem a UFMG, por exemplo), onde as crianças devem parar de brincar na rua e entrar logo pra casa porque líderes de gangues deram "o grito" avisando que ia começar o tiroteio do dia, onde as crianças quando solicitadas a fazer um desenho, não fazem florzinhas coloridas ou nuvens, mas sim carros de polícia e homens com armas na mão. Não, isso não fica no Rio de Janeiro ou no Iraque, fica aqui do nosso lado, em BH mesmo, em favelas no meio dos ditos bairros nobres da zona sul.
Atendendo esse caso, começei a lembrar de uma avó que conversei uma vez, informalmente, nos corredores de um hospital onde eu fazia estágio... Ela é avó de gêmeos hiperativos de 8 anos, e cuida deles, do irmão de 10, da irmã de 16 e da mãe dos quatro, tetraplégica. Ela me disse: "Fico olhando pra você assim, toda bonitinha, você estuda em uma universidade, tem seu celular, faz estágio, é inteligente... Isso eu NUNCA vou conseguir dar isso para os meus netos. Minha neta que tem quase sua idade não tem nem um décimo das oportunidades que você tem."
Gente, isso me matou.
Como a gente pode ficar preocupado só com o nosso mundinho acadêmico enquanto o mundo é muito maior? Como a gente usa nossa qualificada formação somente pra ganhar dinheiro e ser mais ricos do que somos, e não para contribuir pelo menos um pouco com aqueles injustiçados socialmente? Como gastamos tempo contribuindo para a manutenção a desigualdade, justo o nosso precioso e corrido tempo de universitário?
Colegas, se não partir da gente, não parte de mais ninguém. Somos uma mão de obra inscipiente, mas qualificada, temos o "know how" para atendermos uma população abandonada. Temos tempo (sim, ainda temos sim... Veja só nossos pais), energia, e precisamos de prática! Quer combinação melhor do que essa?
Pode parecer clichê, mas tem gente que precisa da nossa ajuda mas eles não sabem aonde e nem quem procurar. Mas nós sabemos exatamente aonde e quem ajudar.
Não estou propondo uma carreira de trabalho voluntário, continuem sim nos estágios e empregos remunerados porque também temos que nos sustentar! Mas lembrem-se: trabalhos de caridade, cesta básica e bolsa-escola tem em todo canto, por isso a nossa melhor doação é a nossa mão-de-obra. Mudar a vida de uma família carente por esforço e dedicação sua, não tem preço (tá, isso foi clichê, mas é verdade).
Bom, esse era o recado que queria dar hoje.

Reflitam e comentem.

4 comentários:

Ivi disse...

Você tem toda razão, Lí~via.. Eu tb sou estudante de psicologia, e tb sou de uma federal... E ultimamente tem surgido uma inquietação muito grande em mim co relação à forma como eu retribuo à sociedade a educação que recebo... Afinal de contas, tô recebendo uma educação de qualidade, e fazendo um curso que coloca a pessoa em primeiro lugar... Seria, no mínimo, extremamente egoísta da minha parte não fazer nada, né?

Lívia disse...

Com certeza Ivi! Não seria ótimo se todos os nossos colegas (não só do nosso curso, mas de todos!) também pensassem assim? Nosso curso coloca a pessoa em primeiro lugar. Há cursos que colocam a sociedade em primeiro lugar, o fazer social em primeiro lugar ou o direito dos cidadãos em primeiro lugar, e ainda assim muitos acabam colocando o dinheiro em primeiro lugar...

Nana Banana disse...

Acho que podemos fazer sim a diferença na vida de algumas pessoas, ajudá-las...O internato da faculdade é uma oportunidade para isso, penso eu. Contribuímos muito. Dinheiro deveria ser importante para se viver tranquilo, afinal tudo em excesso não presta. Outro dia comentei: Não sei pq um cara compra uma ferrari. Me criticarm mto...longa história...

sam disse...

é verdade lívia. seu relato me cativou bastante e me fez lembrar que não tenho tido tempo para tanto. mas gosto de imaginar que à minha maneira já ajudo a todos, pois penso ser minha profissão de grande mudança social. gostei da sua reflexão e admiro as possíveis escolhas profissionais que você pode fazer em nome de suas reflexões e preocupações. Quem sabe no futuro eu tenha mais tempo para ajudar?

p.s. eu sei porque um cara compra uma ferrari. eu apenas não compraria uma.